Ensaio Quântico

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Sofia desceu as escadas apresentando um nível alarmante de euforia. Seus pezinhos descalços correndo pelo chão gélido do sábado de manhã provocavam um alvoroço comparável a uma desordenada orquestra de bramidos de elefantes. Dourado, o gato, estremeceu ao acordar de seu cochilo matutino. Possuía esse nome devido à coloração com tom de caramelo de sua pelagem. Espreguiçou-se esticando ao máximo sua coluna, deu duas lambidelas na pata para esfregar a saliva nos pelos do rosto e seguiu a garota até a sala de estar.

Havia algo “diferente”, por assim dizer, na sala de estar. Criando um excêntrico e pequeno campo gravitacional à sua volta, onde xícaras e torrões de açúcar flutuavam executando um movimento de translação com trajetória elíptica ao seu redor, um pequenino buraco negro situava-se ao centro do aposento. Sofia e o gato vislumbravam aquilo com espanto, apesar de ambos serem alvos de uma inquietante curiosidade.

– Parece se tratar de uma singularidade quântica gerada através de algum tipo de ruptura no espaço-tempo do nosso universo – disse o gato.

Sofia ficou assombrada. Desde quando o gato falava? E como ele era tão sabido?

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– Como você sabe, Dourado? – perguntou Sofia, sem compreender direito o que ele dissera, mas achou melhor não admitir isso, com medo de parecer mais burra que seu bichinho de estimação.

– É apenas um palpite – respondeu ele, com tom esnobe. – Não dá para saber de fato, até eu analisar minuciosamente e estudar cada uma das propriedades físicas que regem esta anomalia.

Dessa forma, os dois continuaram analisando o buraco negro. O gato, com certa dificuldade devido à falta de prática, mantinha abocanhado um lápis e escrevia algumas complicadas equações matemáticas num pedaço de papel. Sofia apenas olhava admirada para aquela coisa preta no meio da sala, que discretamente sugava o ar e a luz do ambiente.

Além de Sofia e do gato falante de QI admirável, outro personagem obteve o privilégio de contemplar aquele pequeno milagre do universo. Serginho, o pai de Sofia, chegara. Estava um tanto com pressa, pois precisava devolver alguns filmes na locadora até o meio dia, e ainda precisava rebobinar as fitas, caso contrário pagaria multa. Isso sem contar na bronca que receberia do gerente quando ele descobrisse que Sofia gravara um pedaço do desenho animado “Cavalo de Fogo” por cima dos créditos de “Querida, Encolhi as Crianças”. Mas espere, que diabo é aquilo?!, pensou o pai de Sofia ao topar com toda aquela histeria ocorrendo em sua casa.

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– Sofia! O que é isso? Por que o gato está com as minhas ferramentas? E como foi que ele resolveu cálculos de derivadas e integrais que nem mesmo Isaac Newton conseguiria?

– Papai! – animou-se Sofia ao vê-lo, correndo para seus braços, buscando tranquilidade em meio a toda aquela insanidade. – Dourado disse que está construindo uma máquina detec… deteti… de-te-qui-to-ra, que consegue descobrir várias coisas científicas!

O pai continuou sem entender bulhufas. Queria fazer uma pesquisa no computador sobre tudo aquilo, mas era sábado, e sua internet discada só seria gratuita após o meio dia. De qualquer forma, sua vontade não seria satisfeita, mesmo se fosse domingo ou algum dia de semana passado da meia noite, pois o gato havia desmontado o computador para utilizar algumas peças em sua máquina. Mas pelo visto, parecia que o bichano havia terminado, seja lá o que fosse que estivera construindo. Com peças da televisão, da lavadora, do computador e do calhambeque de Serginho, sua máquina parecia funcional.

– Mas que interessante… – disse ele, observando os resultados.

– O que foi, Dourado? O que a máquina disse? – perguntou Sofia, curiosa.

O gato quase cuspiu uma bola de pelo, de tão intrigado. Recompôs-se, respirou fundo e explicou:

– A análise da máquina a respeito do buraco negro é inconclusiva…

O pai, ainda em estado catatônico devido à quantidade de acontecimentos fantásticos ocorrendo simultaneamente ao seu redor, tentou entrar na brincadeira como se estivesse lidando com assuntos do cotidiano:

– Droga! Então esse monte de sucata que você construiu a custo dos aparelhos mais valiosos da minha casa não serve para nada? – disse ele, com uma pitada de ironia em sua voz, tentando esconder sua insegurança e incompreensão da situação.

– Incorreto – retrucou o gato. – A máquina é um verdadeiro sucesso. Para provar sua eficácia, posso descrever duas anomalias incríveis, que nem sequer imaginávamos, detectadas neste recinto.

– Além de dois seres humanos e um felino – continuou o gato –, há mais alguém aqui, apenas observando. Por mais estranho que possa parecer, minha máquina indica inequivocamente que há um enorme dragão cuspidor de fogo nesta sala.

Sofia e seu pai assustaram-se com aquela informação. Mas a curiosa garota não era de aceitar afirmações absurdas tão facilmente, sem nem sequer fazer seus questionamentos:

– Então cadê ele? Por que não vejo nenhum dragão?

– Porque ele é invisível – respondeu o gato.

– Por que não sinto o calor de seu fogo?

– Porque suas baforadas são atérmicas.

– E por que, por mais que eu corra por toda a sala, não trombo com nada invisível?

– Porque o dragão é intangível.

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O pai de Sofia era um homem esperto e estudioso. Era formado em engenharia de produção, possuía um bom emprego numa firma que fabricava engrenagens para maquinários e tinha o costume de ler bastante, o que o tornava, sobretudo, uma pessoa culta. Assim pôde, pela primeira vez naquela manhã, argumentar sobre algo de que tinha conhecimento:

– O Mundo Assombrado pelos Demônios, de Carl Sagan!

– Perdão? – desentendeu o gato.

– Esse dragão que você mencionou – continuou Serginho –, é igual ao do livro de Carl Sagan.

– Desculpe, meu humano, mas caso não tenha percebido, sou apenas um gato. Não possuo o hábito de leitura. Portanto, não reconheço sua referência.

Enquanto Dourado e seu pai conversavam, Sofia observava profundamente aquele pequeno e curioso buraco negro que flutuava sobre o tapete persa de sua sala de estar. Seus olhos vidrados notavam com muita perspicácia que aquela coisinha, cujo tamanho não ultrapassava uma bola de futebol, escondia em seu interior algo maior e muito mais ambicioso. Parecia haver uma sopa de estrelas ali dentro. Com uma análise mais profunda, era possível identificar que não era somente uma sopa de estrelas, mas sim uma sopa de galáxias. Com um olhar ainda mais aguçado, era possível perceber que não se tratava apenas de uma sopa de galáxias, mas sim de uma sopa de universos. Uma infinidade de outros universos, cada um com suas bilhões de galáxias, cada galáxia com seus bilhões de sistemas solares, cada sistema solar com seu punhado de planetas, e alguns desses planetas abrigavam trilhões de seres vivos. Havia vida dentro do buraco negro em sua sala. Como isso era possível?

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– Mas para mim, um dragão que não pode ser visto, ouvido, tocado ou sentido, não existe! – dizia Serginho, continuando com a discussão a respeito do dragão.

– Papai – interrompeu Sofia, deixando de lado o buraco negro por um instante –, acho que o dragão ficaria bastante triste se ouvisse você dizendo que ele não existe!

– Filhinha, tudo aquilo que não podemos provar que existe, não existe. Simples assim.

– Mas e quanto ao Papai Noel, que nunca ninguém vê, ao coelhinho da páscoa, à fada do dente e a Deus? – questionou a garota.

– Chega de divagar sobre isso! – interrompeu o gato, a fim de prosseguir com suas deduções mirabolantes. – A segunda anomalia detectada por minha infalível máquina é ainda mais inacreditável.

Uma pausa de suspense foi feita. O que, em todo o universo, poderia ser mais incrível do que um dragão invisível? Sofia estava ansiosa para ouvir.

– Neste exato momento… – prosseguiu o gato. – Bom, não sei como explicar isso… Agora, enquanto estamos aqui na sala, fazendo e dizendo tudo isso… Há alguém nos “lendo”!

– Lendo como se fôssemos um código de barras do supermercado? – perguntou Sofia.

– Não – respondeu o gato. – Há alguém nos lendo como se fôssemos uma história. É como se todo o nosso mundo, as nossas vidas e a de todos que conhecemos, não passassem de ficção.

Serginho ficou pasmo, mal acreditava no que ouvia. O gato, todavia, afirmava aquilo com um tom de certeza em sua voz. As contas e equações realizadas em seus rascunhos pareciam não mentir. A máquina era realmente precisa e não cometia erros.

Sofia estava tentando pensar em algo inteligente para dizer. Agora que sabia que alguém a estava observando, ou melhor, “lendo” sua vida, não queria parecer burra. Queria fazer de tudo para impressionar seu leitor, para que ele criasse um certo afeto por ela, pois sabia que personagens amadas por seus leitores acabam ganhando uma força inexplicável e são capazes de superar qualquer tipo de desafio, até mesmo voltar da morte, em algumas ocasiões. Mas e se esse leitor puder ler pensamentos?, pensou Sofia. Ela não queria que ninguém soubesse, por exemplo, que seus pés nunca tocaram o mar. Ela foi à praia somente duas vezes em toda sua vida, e passou pouco tempo por lá. Havia visto o mar somente de longe, durante uma viagem de negócios de seu pai. Que tipo de garota inteligente e aventureira nunca brincou numa praia?, pensou, só se for uma garota boba e sem graça!

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– Por que isso? – perguntou Sofia.

– “Por que” o quê? – questionou o gato.

– Por que alguém está nos lendo?

– Não sei – admitiu ele. – Eu não sei de tudo. Até ontem eu não sabia falar e nem possuía conhecimento algum sobre física quântica. Meu QI provavelmente era bastante lamentável. Até ontem não havia um buraco negro em nossa casa. Tudo isso… é como se alguém estivesse manipulando os fatos do nosso universo a seu bel-prazer, colocando-nos diante de situações absurdas. Mas o porquê disso, você me pergunta? Eu não sei…

O pai de Sofia, com um ar cético, ainda conferia os rascunhos dos projetos da máquina do gato. Apesar daquelas equações diferenciais quase não serem algo deste mundo, os resultados até que faziam bastante sentido.

A máquina detectora de anomalias repentinamente surtou, fazendo barulhos estranhos, esquentando além do limite e soltando fumaça como se fosse explodir. Estava transmitindo resultados de leitura insanos, os quais o gato conferia com tremendo espanto.

– Carambola! – disse ele, nervoso e descontrolado. – Algo completamente fora do comum está para acontecer!

TOC, TOC! Alguém batia na porta, quando o pai de Sofia largou os rascunhos da máquina e foi atender. Um homem de terno negro, gravata borboleta e chapéu de coco resolveu visitá-los naquele inoportuno momento. Ninguém o conhecia, mas ele insistiu em entrar mesmo sem ser convidado, empurrando Serginho indelicadamente para desviá-lo do caminho e seguindo até o pequeno buraco negro.

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– Quem é você? – perguntou o pai de Sofia.

– Desculpem pela grosseria – disse o homem, com um tom exótico na voz. – Aposto que estão bastante confusos a respeito disso tudo.

O gato fixou seu olhar no homem. Com a cauda empinada, apontou com a cabeça para o buraco negro e perguntou:

– Você sabe de onde veio isso?

– Certamente que não – disse o homem, enquanto tirava o chapéu e colocava-o sobre o sofá –, mas é graças a isso que todos vocês existem.

Quem, em todo este maldito universo, é esse homem?, pensou o gato, observando atentamente todos os seus movimentos. Com uma postura extremamente ereta, voz tranquila e olhos vazios, que nada diziam a seu respeito, o misterioso homem prosseguiu:

– Por favor, permitam-me explicar a situação. Eu topei com essa… “coisa”… outro dia, e isso foi algo que realmente me intrigou. Não fui capaz de explicar o que era, e nem sabia como havia surgido. Nessas condições, criei uma casa em volta da anomalia. Criei um homem trabalhador, uma garotinha, um gato e um dragão invisível. Coloquei-os na casa e os fiz pensar que viveram durante anos ali, quando na verdade possuíam apenas algumas poucas horas de existência. Não consigo me lembrar por que exatamente agi dessa forma… mas foi interessante observar que a anomalia modificou a inteligência do gato. Eu não o tinha criado assim, e tampouco planejava essa mudança abrupta. Agora, se me dão licença… preciso descriá-los e colocar um fim em toda esta confusão.

– NÃO! – gritou Sofia. – Você não pode acabar com nossa história… não assim, e não agora! Tem gente lendo… e eu estava fazendo todo o possível para que me amassem…

Serginho tentou impedi-lo, mas antes que tivesse a chance de chegar de encontro a ele, ou antes sequer que abrisse a boca para argumentar algo, o homem misterioso bateu uma simples palma e tudo à sua volta desapareceu, restando apenas ele próprio e o buraco negro.

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– Sinto muito, Sofia, mas sua história acabou. Nunca termina do jeito como queremos, é uma pena.

O homem sentou-se no chão, cruzando as pernas, e ficou admirando a quase infinita complexidade do pequeno buraco negro. Alguma coisa parecia estar lhe incomodando. Não era apenas sua incompreensão da anomalia. Algo além disso perturbava sua mente. Era como se alguma coisa estivesse lhe faltando. Será que deveria criar novas cobaias para lidar com a situação? Não, ele havia acabado de fazer isso, e havia fracassado. Um gato, um homem, um dragão invisível… e uma garotinha. Por que mesmo ele havia selecionado especificamente essa combinação de seres para seu experimento? Por que o gato ficara tão inteligente sob a presença da anomalia? Será que realmente havia alguém “lendo” tudo aquilo? Esse leitor ainda estaria lendo sua vida e observando seus questionamentos? O homem estava confuso.

Fixando seu olhar no mais profundo interior do pequeno buraco negro, enxergou uma casa ali dentro, onde uma garotinha chamada Sofia assistia Cavalo de Fogo junto de seu gato cor de caramelo.

Logo o estranho homem de chapéu de coco descobriria que amava aquela intrigante garotinha mais do que tudo e, assim, seu inquietante buraco negro desaparecia.

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Créditos:

Roteiro: Thales Soares

Ilustrações: Marcio Lucas

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4 comentários em “Ensaio Quântico

    1. Obrigado pelo apoio Ita.

      Infelizmente as coisas são um pouco complicadas, e esse tipo de conteúdo não é tão atraente para as editoras. Acredito que eu precisaria, antes de procurar publicar, fazer sucesso na internet.

      De qualquer forma, se você gostou dessa história fique tranquilo, pois em breve aparecerão bem mais por aqui nesse mesmo estilo.

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  1. Cara, ficou incrível!

    Eu já conhecia o conto, e foi legal reler, é uma história muito boa! Eu adoro intertextualidade e metalinguagem, e você usou super bem. Os personagens são muito bons e o enredo também. Mas como já comentei o conto anteriormente, não vou me ater nisso agora.

    O que queria mesmo ressaltar é que o site ficou muito bom! Tá bonito e agradável.

    Quanto à história animada, ficou genial! Sério!

    Adorei! Deu um brilho especial ao conto. Já era bom, agora ficou incrível!

    Parabéns e continue com o trabalho, vou ser seguidor assíduo.

    Parabéns!

    Curtido por 1 pessoa

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